Apesar de tudo que de agradável nesta cidade, qualquer tipo de informação que possámos perguntar era respondido com as mais variadas e completamente contraditórias respostas como nunca vi!! No entanto, após um complexo cruzamento de dados das várias respostas que obtive, lá consegui acertar no sítio e hora dos dois únicos autocarros diários até à aldeiazita de Chochís.















Esta aldeia é de uma extrema calma, onde burros soltos às manadas aparam a relva municipal da praça central... por vezes acompanhados por uns porcos e sob o constante cacarejar das galinhas e pintaínhos.Isto é uma aldeia familiar, onde os habitantes se cumprimentam à imagem do que também acontece nas nossas aldeias.
Depois de visitar a cascata "Véu da Noiva", e a impressionante formação rochosa conhecida pela "La Torre", pouco restou para fazer neste dia... seduzido por uma pequena placa de ardósia que dizia "se vende pudins flan y bolos", ali fiquei a fazer companhia no alpendre do Sr. Luís, onde eu ia cumprimentando de igual forma os transeuntes humanos daquela rua principal de terra batida. Fomos falando do grande alúvio que quase destruiu toda a aldeia, e que também quase engoliu o combóio cheio de passageiros...
Depois das minhas centenas, milhares de kms numa mesma cadência, esta calma soube-me mesmo bem, sob este silêncio revitalizador que por vezes era interrompido por anúncios locais pelo altifalante junto do ÚNICO telefone (e era público) desta região: "Informa-se que la conferência é a las 21Hoo"; "La classe de violino cambiou para jueves"; "Lo kilo de pollo está a 12 bolivianos"!
Anoiteceu às 19H00, e com o sol tudo também adormece. Fui para o albergue ecológico, que é o único reduto que ainda teimam em não ter electricidade... e sem me ter apercebido disso antes, fui então escrevendo notas no meu bloco à luz da vela, na única hora de cera disponível.












Esta família faz umas empadas e uns salgadinhos fantásticos... no entanto, algo que tem vindo a me irritar um pouco é o número de pessoas que se exclamam: "Ahh... Portugal?! Y que idioma se habla em Portugal?"
Não entendo, pois para mim o nome parece mesmo indicar que é o Português, e que não é só o Brasil que fala Português... ou, pelos vistos, o meu Portuñol é tão bom que que estes falantes de castelhano pensam que é mesmo o meu idioma!!



Depois de ter adormecido bem cedo, comparado com o meu horário do costume, também fiz juz ao provérbio e assim acordei bem cedo para sair do albergue, zigue-zaguear uns cavalos, ultrapassar uns burros, a caminho da carrinha que me levaria a Roboré. Depois de uma mulher (certamente amiga, vizinha ou familiar) ter pedido ao motorista para que lhe trouxesse dessa cidade alcoól e 1 kg de carne, lá partimos abençoados e atafulhados entre abacates, pessoas e um padre que ia atrás de mim.A dita carrinha, mais uma vez japonesa, e com a porta lateral amassada e sem vidro, levou-nos ao centro da cidade de Roboré que nada tem de especial, senão um decadente quartel de polícias militares, e um casino militar (?!).
Com tão poucas atracções, decidi fazer um pequeno desvio até ao afamado Santiago de Chiquitos, numa outra carrinha de 9 lugares japonesa.
Esta é uma outra aldeia calmíssima, ligeiramente mais povoada que Chochís. Depois de um almoço familiar por 0,80euros, fiz uma caminhada até a um mirador que me deixou dislumbrado com o extenso vale de Tucavaca.
À hora combinada pelo motorista da carrinha que me trouxe aqui, ele surge naquela malfadada praça para me dizer que não podia levar de volta a Roboré, segundo ele por falta de gasolina... (acredito que não quis levar-me pois não tinha mais passageiros que assim o justificasse)
Vendo o caso muito negro, pelo facto de não haver mais carreiras ou carrinhas nesse dia, levando-me a perder o combóio dessa noite de Roboré ao Brasil, e quiçá o desaparecimento da minha mochila no armazém da estação de combóios, a única solução era mesmo pedir boleia.
Caminhei um pouco e, à entrada do povoado encontrei um senhor que também ia à mesma cidade que eu, e que também aguardava boleia. Com uma confiança extrema garantiu-me que há inúmeras hipóteses para arranjar uma boleia... no entanto, pareceu-me muito vago quanto ao número de vezes que teve sucesso noutros dias, naquele mesmo sítio e naquela hora.
Depois de 2 horas em que surgiram alguns carros no sentido inverso aonde eu queria ir, e apenas uma carrinha completamente cheia e uma retroescavadora para o meu sentido desejado, fartei-me da companhia daqueles cães, da vaca, dos cavalos, e daquele senhor ainda muito confiante. Perante o meu desespero, este homem mandou parar um agricultor que vinha de sachola na motorizada, e arrisquei negociar com ele um preço!
Depois de ter cambiado de roupa em casa (pois ainda restava algum tempinho para o combóio), lá surgiu o agricultor de T-shirt branca do Evo Morales, com um capacete e ainda um bidão de 5 litros que ia aproveitar a ida à cidade para o encher de óleo. Claro está, lá tive que ir agarradinho ao bidão naquela estrada tenebrosa, ora de terra batida, ora de areia solta.
O Sr. Armando era um falador nato, i.e., no limiar de trocar a letra "n" por "ch"... e assim foi descrevendo quase toda a sua vida, ao que eu respondia apenas monossilabicamente.
Num dos zigue-zagues inesperados naquela areia matreira, rematou o monólogo dizendo que é bom falar para não adormecer!! 8-| Mais assustado fiquei, e confesso que comecei a interagir agora com frases mais elaboradas para o manter sempre alerta. Também comecei a gritar mais alto para que ele me pudesse ouvir melhor, pois sempre que virava a cabeça quando não entendia bem, fazia um outro zigue-zague que me deixava apreensivo... sim, andar de mota não é dos meios que mais me agrada!
Num desses devaneios na areia, lá me informou que agora usa sempre capacete, pois explicou que é para proteger a cabeça dele, uma vez que ja tinha tido um acidente naquela estrada que não queria repetir!
Num encadeamento incessante, fui ouvindo-o atentamente, sem querer perder a minha cabeça... e num dado momento, o discurso foi fluindo de filhos, para irmãos e cunhados. Após a minha interjeição bem audível face à sua sogra que tinha tido 14 filhos, lá me detalhou: 9 são mulheres, 2 são homens, e 2 estão mortos!! Não resisti em dar uma grgalhada inaudível quanto possível face ao ruído mecanizado da "Poderosa". Não quis questionar se o 14º filho era hermafrodita, transsexual, ou se encontrava noutra dimensão Matrix!!
À falta do meu típico e excelente discurso sobre jogadores de futebol boliviano, restou-me apostar em falar de Evo Morales e dos seus efeitos como presidente, ao que o Sr. Armando se extasiava com o seu favorito eleito.
Naqueles 17 km de terra batida e de perigo de vida eminente, passei por vários nomes, começando por "Marc" para simplificar, passando por "Marco", e terminando em "Mário" (porque já não havia mais kms a percorrer), ao qual sempre aceitei sempre de bom grado para não confundir mais aquele pobre homem.
Os últimos e mais confortáveis 5kms de asfalto foram idílicamente a caminho do pôr-de-sol, on o "Ambrósio"me transportava romanticamente agarradinho ao meu querido bidão vazio de hidrocarbonetos.
Cheguei à estação de combóios de Roboré, estiquei as minhas novas 2 escolioses e voltei a regatear o preço. Simpáticamente disse que era 40bolivianos... e que os outros 10bolivianos combinados era para eu jantar.
Em agradecimento, ofereci-lhe as minhas folhas de coca... dizem que é mais forte que cafeína... para sua prórpia segurança!!
Junto ao cais da estação, descansam as pessoas com os cozinhados prontos... aguardam o segundo combóio da noite, para entrarem em romaria pelas carruagens fora apregoando mini jantares e bebidas em cânticos de procissões...



Pouco depois de este camião ter passado por mim, vou encontrar todos os passageiros a recorrer as peças e a roda que inesperadamente se tinha solto do eixo em pleno movimento...




Que aventura essa viagem na "poderosa"!! Ri-me tanto a imaginar a situação! Felizmente chegaste ao teu destino com a tua cabeça no mesmo lugar! Temos "vivido" a tua viagem com emoção sorvendo cada palavra que escreves... analisando todos os registos fotográficos que apresentas!São adoráveis as tuas crónicas! Parabéns e obrigada! Desejo-te a continuação de uma boa viagem! Beijos grandes e com muita saudade!
ResponderEliminarp.s.: obrigada pelo postal! Adorei! :D
Olá Anorac; estou mesmo a ver, as grandes saudades que estão a ficar para traz!!!Mas força, para a próxima há mais, e talvez para outro deserto ainda maior, aí talvez os homens de azul serão mais bravos!! A lanterna de manivela como prenda de anos, causou grande sucesso rirrrr BJ GRANDE p.s. só hoje é que aprendi a mandar comentário........
ResponderEliminareheh..tá demais a foto com o bidão! :) ri-me tanto a imaginar a tua viagem!
ResponderEliminarbeijinhos
Está demais o momento reflectivo à volta da lâmpada juntamente com os dois espíritos gémeos. Agora percebo de onde vém a força psicológica que tem acompanhado a viagem. Além do apoio à distância, no terreno não estás só.
ResponderEliminarTambém esfregas a lâmpada como o Saladino esfregava a lâmparina?
A beleza dos registos fotográficos continuam a surpreender pela positiva.
Abrç
Ah grande Mario!!!!!! :P
ResponderEliminarA cada frase que leio não consigo evitar imaginar-te os teus típicos gestos e expressões!
Entao esta foto tua da Poderosa e do Bidão!!! Surreal!!!
Abraço amigo!
el motociclista hermafrodita! jajaja cuantas mujeres? cuantos hombres?? te acordás cuando me contabas? UN ABRAZO !
ResponderEliminar